O alfeneiro e a aroeira - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
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O alfeneiro e a aroeira

Sempre que vou a São Paulo, chamam-me a atenção as árvores da cidade e os pássaros que as habitam. São árvores enormes, no meio de prédios também altos e de um trânsito intenso. O que seria da cidade sem aquela floresta urbana? Em algumas áreas, pode-se caminhar por ruas inteiras sob as benesses das sombras das copas e do canto das aves, com ênfase dos bem-te-vis e dos sabiás-laranjeiras. Parece até que a maior cidade do Brasil procura sempre compensar as agruras causadas pelo seu enorme crescimento urbano. Aliás, essa minha admiração não é de hoje, vem desde o tempo em que morei na cidade, quando fiz curso de pós-graduação na USP, há mais de 40 anos. Em um desses meus retornos à cidade, passei rápido pelo Parque da Luz, a fim de rever aquele espaço de preservação da natureza, um entre muitos outros que existem naquela enorme urbe. Ao lado, vê-se a restauração do belo e histórico prédio do Museu da Língua Portuguesa.

Em matéria na Folha de S Paulo, assinada por Diego Padgurschi e Juliana Gnagnani, li que existem cerca de 650 mil árvores em São Paulo, muitas delas nativas da Mata Atlântica. A matéria tinha como motivo central um ninho de sabiás-laranjeiras, com três ovos, no topo de um alfeneiro a ser cortado por moto-serra, pois a saúde da árvore não permitia recuperação. Um zelador do prédio em frente viu o ninho e alertou os operários sobre o berço dos sabiás, e o abate do alfeneiro foi adiado por 35 dias, tempo hábil para que os três pequenos pássaros ganhassem os céus com suas próprias asas. Esse alfeneiro fazia parte de um grupo de 35 árvores, com igual sentença de morte, todas localizadas na rua Maranhão, no bairro de Higienópolis.

Mesmo que, em São Paulo, seja comum a queda de árvores durante temporais, com acidentes por vezes graves, houve forte reação dos moradores da região, oposta à decisão do corte, mas o serviço público informou não ser possível salvar as árvores. Esse fato, remete-me para episódio que vivi aqui em Natal, cerca de 20 anos atrás, no tocante a salvar a vida de uma aroeira. O garboso exemplar estava bem no meio da rua Morton Faria, em Lagoa Nova, durante as obras de calçamento da citada via. Os operários, já com a moto-serra à mão, foram por mim abordados no sentido de não fazerem o corte, pois eu iria requerer a suspensão daquela pena capital. Tudo deu certo, e, ainda hoje, mesmo sendo vítima de mal-tratos, a bela aroeira se encontra lá, como símbolo de resistência à sanha dos insensíveis às belezas naturais.

Na maior cidade do Brasil, o sabiá-laranjeira está por toda parte. Ave símbolo do estado de São Paulo, tem cor puxada para cinza/marrom, mas o ventre é mais claro, tendente para o laranja. Seu belo canto é mais ouvido nas primeiras horas da manhã, como se fora uma saudação ao nascer do dia. Decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso, de 03 de outubro de 2002, define o sabiá como a Ave Nacional do Brasil. O ornitólogo Helmut Sick (1910-1991), em seu tratado Ornitologia Brasileira (1986) – recebi doação de um exemplar do próprio autor – se opunha a essa ideia que há muito tempo existia, e afirma: “Seria mais adequada uma espécie endêmica, exclusivamente brasileira, como é a guaruba, que está entre as aves mais bonitas do mundo”. Mas o verso do poeta já havia tocado os corações: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá.”

 

Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

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