Como chegamos até aqui - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
  • Home
  • Núcleos
  • Como chegamos até aqui

Como chegamos até aqui

Esse livro, do título acima, estava na estante das obras compradas e postas lá no aguardo de uma leitura posterior. Foi lançado no Brasil em 2015, pela Zahar, do autor norte-americano Steven Johnson, escritor voltado para a área da ciência e da inovação. De começo, ele mostra as interações evolutivas naturais, como as mudanças nas asas dos beija-flores, capazes de mantê-los parados no ar a fim de sugarem o néctar de uma flor. Assim, a maneira de reprodução das plantas, com a floração e a produção do néctar, terminou por moldar o perfil muscular da asa de um beija-flor. As abelhas criaram mecanismos para ver e ser atraídas pelas flores e, ao mesmo tempo, as flores passaram a atrair as abelhas, ou seja, insetos e flores fazem bem uns aos outros. Johnson chama a atenção para a conexão presente em tudo na natureza, e diz que o mesmo ocorre na história das ideias e inovações. Chama de efeito beija-flor certas mudanças que ocorrem no processo evolutivo da ciência. O autor divide o texto do livro em seis fatores de avanços na qualidade da vida humana: vidro, refrigeração, som, higiene, tempo e luz.

Quanto à história do vidro – sem levar em conta fatos de tempos mais remotos –, a queda de Constantinopla, no século XIII, fez deslocar fabricantes de vidro da Turquia para Veneza, à época, um dos maiores centros comerciais do mundo. A produção de peças de vidro, que precisa de fornos com temperaturas muito altas para a fusão do dióxido de silício, passou a ser perigo de incêndio nas construções de madeiras de Veneza. Com isso, os artesãos do vidro sofreram outro exílio, desta vez para uma jornada bem mais curta, pois o destino foi a ilha de Murano, distante 1,5 km de Veneza. Em 1988, cheguei a Veneza de trem, vindo de Bolonha, e numa manhã fui conhecer a famosa ilha de Murano. Alguns dos mestres do vidro soprado que lá encontrei eram descendentes daqueles primeiros, vindos da Turquia, conforme me disseram. Ainda hoje, existem, na minha casa, pequenas peças de arte de vidro da ilha de Murano.

No dizer de Steven Johnson, o vidro é um dos materiais mais versáteis e transformadores de toda a cultura humana. Por volta dos séculos XIII e XIV, na Itália, artesãos moldaram o vidro em pequenos discos com uma curvatura no centro, e colocaram uma moldura para unir duas dessas peças: tinham criado os primeiros óculos do mundo, então chamados “discos para os olhos”. Devido à semelhança com uma lentilha, também foram chamados de lentes. Passaram-se gerações para que essa novidade viesse a se tornar importante. Quando isso ocorreu? Ora, a partir da segunda metade do século XV, com a invenção da prensa móvel por Gutemberg, em 1440. Desde então, a ânsia por leitura de material impresso disparou, fato gerador da alta procura por óculos. Não demorou muito para as experiências com lentes levarem à invenção do microscópio, e, com isso, à descoberta da célula, unidade básica dos seres vivos, bem como dos micróbios. Em seguida, foi a vez do telescópio, com o cortejo de mudanças dos conhecimentos, a exemplo do desafio de Galileu ao paradigma aristotélico de que todos os corpos celestes giravam ao redor da Terra. 

A história do vidro é um modelo típico do efeito beija-flor, na evolução da ciência, com reflexos na vida social, econômica, política e biológica dos seres humanos.

Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Utilizamos cookies para assegurar que lhe fornecemos a melhor experiência na nossa página web.

Política de Privacidade Ver opções