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Paris, cidade musa (2)
29.02.2012

Na crônica passada, reportei-me ao charme de Paris, cidade musa, capaz de inspirar estudos e pesquisas, os quais resultam em belas criações culturais nas letras e nas artes. Falei um pouco sobre três livros que se enquadram dentro do rol dessas obras, e abordei de relance o filme Meia-Noite em Paris. Nesse longa-metragem, Woody Allen exalta o turismo de bagagem cultural, expresso de forma brilhante na fantasia do protagonista Gil (Owen Wilson). O crítico de cinema Sérgio Rizzo, em texto recente, afirma que Allen, no tocante ao saudosismo do filme, talvez prefira assinar a frase célebre de Paulinho da Viola: "Eu não vivo do passado; o passado é que vive em mim". Ao final da crônica, deixei clara a intenção de reler a obra "Paris é uma Festa", do título em inglês "A Moveable Feast", de Ernest Hemingway, principal fonte de pesquisa usada por Paula McLain para escrever "Casados com Paris", livro que eu acabara de ler. Por puro deleite, voltei às páginas da obra póstuma de Hemingway.

Ernest Hemingway e Gertrude Stein, nomes famosos da literatura mundial, foram amigos leais, prontos para a ajuda mútua, mas ambos eram temperamentais e polêmicos. Sobre a expressão "geração perdida", que Stein usou para identificar os escritores, poetas e artistas expatriados na capital da França – logo após a primeira guerra mundial –, Hemingway se rebela e escreve em "Paris é uma Festa", referindo-se a Gertrude Stein: "Veja só quem chama os outros de geração perdida!" E prossegue, com certa ironia: "...quando me aproximei do Closerie des Lilas, os refletores iluminando meu velho amigo, a estátua do Marechal Ney com sua espada desabainhada, as sombras das árvores batendo no bronze, e ele sozinho ali, sem ninguém atrás dele, lembrei-me de seu fiasco em Waterloo e concluí que todas as gerações eram perdidas, por alguma razão, sempre tinham sido e sempre haveriam de ser". Neste livro de memórias, o autor de "O velho e o Mar" ressalta o apreço pelo poeta Ezra Pound, com quem jogava tênis e partilhava encontros sociais, ao lado das esposas Hadley e Dorothy. Em Paris, Ezra foi também amigo próximo de Joyce e de T. S. Eliot, até se mudar para Rapallo, na Riviera Italiana.

O "affair" entre Hemingway e Pauline Pfeiffer, amiga de Hadley – primeira mulher do escritor – ocupou vários dos últimos capítulos de "Casados com Paris". Pauline foi morar em Paris, tornou-se próxima de Hadley e terminou por causar o divórcio do casal, para ocupar o posto de segunda mulher de Hemingway. Em seu romance, McLain sobressai a luta de Hadley para salvar o casamento e, em certo momento, deixa dúvidas sobre os laços de afeto que uniam as três figuras. Em "Paris é uma Festa", Ernest Hemingway vai direto ao ponto e assim se expressa: "Hadley e eu já havíamos sido contaminados por outra pessoa(...), que lançou mão de um dos truques mais batidos que se conhece: uma garota solteira tornar-se amiga de outra garota casada, passar a viver na companhia do casal e a iniciar, talvez sem saber, inocentemente, mas com perseverança, a conquista do marido". Em 2009, porém, Seán Hemingway, neto de Pauline e Ernest, lança nos Estados Unidos uma nova versão de "Paris é uma Festa", sob o título "A Moveable Feast – The Restored Edition", na qual resgata e salva a memória da avó. Seán se lovou em arquivos e manuscritos guardados na Kennedy Library, de Boston, e diz que Mary, quarta mulher de Hemingway, deturpou os fatos narrados na primeira edição, lançada em 1964, três anos depois da morte do famoso escritor. Essa obra de Seán difere muito da edição de origem / reedições, com rigor no tocante a Pauline, que deixa de ser vilã para ter perfil digno no meio dessa história. Seán Hemingway afirma ser este o fiel texto da obra de memórias que seu avô escreveu.

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