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O moinho, a estante e o penico
18.04.2012

A vida toda voltada para as lides intelectuais, escritor e poeta, autor de vários livros e de muitos artigos e crônicas, o jornalista Celso da Silveira (1929 – 2005) é imortal pelos méritos da obra que realizou. Versátil, inteligência a toda prova, Celso era alegre, bonachão e divertido. Tinha sempre um causo ou uma história/estória engraçada para contar. Nossa amizade começou desde o tempo em que fui um dos médicos da sua primeira esposa, a poetisa Myriam Coeli. Gostava de antiguidades e montou em sua casa um verdadeiro museu. Certo dia, cerca de 15 anos atrás, disse-me que decidira vender todas suas peças e coleções de arte, sem me informar o motivo. Demorei a ir à casa do amigo, mesmo assim, ainda pude comprar peças que me prenderam a atenção, a exemplo de um moinho manual de triturar milho, de uso frequente, há mais de cem anos, em fazendas dos Estados Unidos. Pouco tempo depois, fiquei surpreso ao ver, em loja de luxo de New York, um moinho similar, posto ali para decorar a vitrine.

Naquele bazar na casa de Celso da Silveira, percebi sua satisfação à chegada dos amigos, mas também notei seu semblante de frustração e de tristeza ao se desfazer do acervo, até então guardado com tanto carinho. Porém ele fazia questão de demonstrar a certeza de que os objetos vendidos estariam com pessoas de sua amizade, as quais iriam dedicar-lhes os mesmos cuidados de antes. Insistiu para que fosse parar na minha casa uma pequena estante de madeira – talvez mogno – com recortes e sem apliques, montantes torneados, singela e bonita. Sua sugestão foi aceita e, desde então, repousam nessa estante, entre outros, os santos da minha infância, em forma de esculturas em madeira, autoria de Luzia Dantas. Permitam-me contar essa passagem dos "santos da minha infância". Em 1986, fui a Currais Novos, em missão da UFRN, e fiz uma visita à artista Luzia Dantas. Tive, então, o prazer de conhecer a notável artesã e, no momento, resolvi fazer-lhe uma encomenda. "– Qual santo você quer?", perguntou-me Luzia. "Os santos da minha infância", respondi. Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Nova Cruz; São Sebastião, patrono da segunda maior igreja da cidade, no bairro do mesmo nome; Nossa Senhora do Carmo, do colégio que vive sob suas bênçãos, onde estudei e em cuja capela fiz a primeira comunhão; e Santa Luzia, entronizada na Igreja que foi local sagrado da fé e da devoção do meu saudoso pai.

Entre as peças de antiguidade em meu poder, vindas do "museu" de Celso da Silveira, está um belo penico de louça. No passado – os jovens talvez não saibam –, o penico ou urinol era imprescindível no quarto de dormir, a fim de coletar xixi ou dejeções durante a noite – amiúde a urina –, pois era comum os banheiros ficarem do lado de fora das casas. Feitos para comportar cerca de três litros de líquido, quase sempre eram de metal, mas podiam ostentar o charme e o requinte da boa louça ou porcelana. O meu penico de louça, ou seja, o dito cujo que comprei a Celso, é branco e ornado com ramos florais em alto relevo. Na base externa, vê-se o símbolo da fábrica, com a data 1820, e o nome da famosa marca Thos Hugues & Son Ltd – England.

Há poucos dias, atendi o telefone e conversei com uma gentil senhora de nome Alba Bezerra de Souza Melo, professora aposentada. Disse-me que queria tão somente notícia do penico de louça, pois o vaso pertencera a sua avó, Joaquina Maria de Souza, de São José de Mipibu. "Como você soube do destino do penico?", perguntei. Alba me disse que seu pai, Lulu Fogueteiro, mestre de fogos de artifício em São José de Mipibu, recebeu tal informe de Celso da Silveira, seu dileto amigo. Agora, o penico perdeu – ou ganhou?– seus momentos áureos, e serve apenas para relembrar que, no passado, seus préstimos foram de sumo valor.

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