Viagem para guardar na lembrança - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
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Viagem para guardar na lembrança
05.05.2011

“Estamos preocupados com a violência, porque o ano passado houve dois crimes de assaltos nesta cidade”, disse o guia. “Como se preocupar com um número desses?” Perguntei, para ouvir a resposta, seguida de risos: “Ora, houve grande aumento, pois em 2009 só ocorreu um assalto”. Não pensem que falo de um país nórdico, ou outro tido como o melhor do mundo. Estava mesmo no Brasil, nas Serras Gaúchas, na cidade de Gramado. O guia completou seu relato, ao dizer da grande oferta de escolas e de empregos para todos. Na viagem de poucos dias, eu e minha mulher tivemos a companhia de dois netos, um com oito e outro de doze anos. Essa não foi a primeira viagem feita com netos e outras já estão programadas. Avô e avó podem esbanjar afeto e amor com os netos, mas sem bloquear a missão de educar dos pais. A respeito disso, vejam esta cena. Estávamos dentro de pequeno ônibus, em frente ao hotel, para passeio de um dia pelos arredores de Gramado. Ônibus cheio, já na hora de sair, um neto pede para eu ir buscar o iPad no quarto. Expliquei o atraso que poderia causar, mas ele insistiu já de cara feia. Saí quase correndo, subi e desci rápido às escadas – só dois andares, graças a Deus –, voltei apressado como saí e entreguei o iPad ao netinho, sem transtornos para os outros passageiros. O sorriso do garoto compensou tudo. Lá de trás, uma voz de mulher disse: “Faria isso também se fosse um filho?” Minha resposta: “Não, acho que não”. E a voz feminina completou: “Já sabia a resposta, perguntei só por perguntar”. Riso geral. Os meninos ficaram conhecidos nos passeios, pois somente eles eram crianças, e foram elogiados pela forma de se comportar. Guardei segredo, no entanto, das querelas entre os dois e da guerra de travesseiros no quarto do hotel, mas tudo foi divertido e alegre. Durante o passeio para visitar os vinhedos, em Bento Gonçalves, um cidadão que viajava perto de mim perguntou qual era a minha cidade. Ao falar em Natal, um rapaz ao seu lado, morador do Rio, disse que tinha raízes com o Rio Grande do Norte, precisamente com a cidade de Nova Cruz. Surpreso, disse-lhe das minhas origens naquela cidade e, no decorrer da conversa, soube quem eram seus avós, diletos amigos dos meus pais. No percurso, passou-se por Nova Petrópolis, quando houve uma parada de alguns minutos. Na praça central, onde existe um belo monumento ao cooperativismo, meus netos encontraram dois garotos jogando futebol e logo se formaram dois times, os gaúchos e os potiguares. Felizes, eu e minha mulher ficamos por perto a vigiá-los, mesmo após o guia ter dito que nenhum assalto houve na cidade em 2010. Entre os eventos mais prosaicos, costumam estar bons instantes da vida. No caso, cheguei até a pensar quem estaria mais feliz: se os meninos a jogar bola, ou nós atentos a vê-los, em uma manhã de domingo, sentados num banco em praça de cidade distante. Pensando bem, não dá para comparar, são felicidades tão distintas... Depois de Nova Petrópolis, a caminho das terras dos vinhedos, encontram-se três cidades com nomes de homens famosos: Carlos Barbosa, Garibaldi e Bento Gonçalves. Carlos Barbosa foi governador do Rio Grande do Sul no início do século XX; Bento Gonçalves e Garibaldi foram líderes da guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha, a mais longa guerra civil da história brasileira. O notável escritor gaúcho recém-falecido, Moacyr Scliar, escreveu o ótimo livro “Uma História Farroupilha”. O passeio no trem da Maria Fumaça, duas horas de Bento Gonçalves até Carlos Barbosa, com parada em Garibaldi, trouxe-me evocação da infância, quando saía de Nova Cruz-RN para João Pessoa-PB, em trem semelhante, ao lado dos meus pais. Os netos prestaram atenção ao lhes falar dessas antigas viagens, com a fumaça e a poeira entrando nos vagões, o som do sino da estação e o apito da máquina a vapor. Para eles, aquele era apenas um momento lúdico; para mim, era também um resgate proustiano de emoções desenhadas nas brumas do tempo.

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