Roupas inesquecíveis - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
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Roupas inesquecíveis

Tenho minhas roupas inesquecíveis, aquelas guardadas nos desvãos da memória, por motivos diversos. Às vezes, porque foram vestidas em momentos marcantes, ou porque me sentia bem ao vesti-las, ou ainda por achá-las bonitas e confortáveis. Chego a sentir saudades dessas roupas, muitas delas as mais simples possíveis, como aquelas do meu tempo de criança. Penso que todas as pessoas de mais idade têm lembranças de certas peças do vestuário, algumas impregnadas de forte apelo emocional, ao ponto de tê-las bem guardadas em casa, de modo a protegê-las dos desgastes próprios do tempo. Tal prática revela-se em mães quando tiram do fundo do baú as roupinhas dos seus rebentos, a fim de relembrar momentos felizes vividos no passado.

Como esquecer o conjunto branco que vesti no dia da minha primeira comunhão, por volta dos sete anos de idade, calça comprida e camisa de mangas longas, com sapatos da mesma cor? Aviva-se na minha memória um paletó simples de cor cinza claro, feito de brim sedoso, com calça curta do mesmo tecido, conjunto com o qual me sentia "superbacana". Havia uma foto em álbum organizado por minha mãe, eu vestido com esse paletó, mãos nos bolsos, sorriso aberto, era mesmo o tal. Do meu tempo nova-cruzense, gravou-se na minha mente a imagem de um par de sapatos que meu pai me deu num dia de festa de final de ano, pois os calçados velhos já não podiam receber outra meia-sola. Ele me levou à loja de Fenelon, e escolhi o par de sapatos que mais me agradou, do qual cuidei com devoção. Ainda hoje, quando vou comprar calçados, escolho, quase sempre, algo que se pareça com aqueles da loja de Fenelon, em Nova Cruz, cerca de 70 anos atrás.  Há também um acessório do qual recordo com total nitidez e carinho, presente da minha tia e madrinha Alix Ramalho: um "chapéu de engenheiro", assim chamado na época, feito de material fibroso, revestido de tecido cáqui, tipo os chapéus usados em safari. Um primor.

Aos 11/12 anos, quando vim para Natal a fim de continuar os estudos, fui morar, inicialmente, na casa do tio Genival, na Praia do Meio. Na minha bagagem, trouxe um calção feito de tecido rústico azul marinho, que me vestiu nos meus frequentes banhos de mar, de Areia Preta à Praia do Forte. Usei-o até rasgar, de tão fino que ficara. Trouxe também duas calças compridas de brim, usadas aos domingos de forma alternada, para ir à missa e, por vezes, ao cinema. Dou um salto no tempo, pois não é possível resgatar todos os itens do assunto em foco, e recordo de certo blazer, o que mais me fascinou dentre todos os que possuí vida afora. Lembro-me que o vesti com frequência durante os quatro anos em que exerci o cargo de Vice-Reitor da UFRN. Quando assumi as funções de Reitor – 1987 –, continuei a vesti-lo, mas meu grande amigo Jessé Dantas Cavalcanti, Chefe de Gabinete da Reitoria, ligou para minha mulher: "Não dá mais para se ver o Reitor com esse blazer, esconda-o por favor", e assim foi feito.

Finalizo com parte do poema "O vestido", de Adélia Prado: "No armário do meu quarto escondo do tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto. É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes delicadas. Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante. Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido". 

Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

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