O Papa sem papas na língua - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
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O Papa sem papas na língua
08.01.2015

O papa Francisco, pelas suas locuções e pelas suas posições face aos problemas atuais da Igreja, já se mostra capaz de um dia figurar no panteão de exponenciais Santos Padres, a exemplo de São João XXIII e de São João Paulo II. Quase sempre, sua fala e sua escrita abordam temas concretos, que vão direto ao ponto, sem rodeios ou evasivas. Muitas vezes, ele descerra as cortinas que escondem os erros, os desvios da Igreja e até os crimes que a enchem de vergonha. Na sucessão de Bento XVI, torci para que o nome do cardeal brasileiro Dom Odilo Scherer fosse proclamado, após a visão da fumaça branca sobre a chaminé do Vaticano. Hoje, estou certo de que o Espírito Santo rondou as mentes e os corações dos cardeais, naquele instante sagrado da eleição do sucessor de Pedro. Ao discursar para cardeais, bispos e monsenhores, em 22 de dezembro de 2014, Francisco foi claro e sincero sobre as condições bio-psico-sociais e morais da atual Cúria Romana, quando listou 15 “doenças graves” que afetam a mais alta instância da Igreja. Diante das doenças citadas e das condutas terapêuticas sugeridas, dá para se chegar à conclusão de que este é um papa de coragem para dizer a verdade, ou seja, um papa sem papas na língua.

“Como qualquer corpo humano, a Cúria sofre de doenças, e é preciso aprender a curá-las”, disse Francisco. Houve certo desconforto entre os integrantes da Cúria Romana, causado pelo impacto das palavras do papa, a três dias do Natal de 2014, voltadas com ênfase à burocracia da Santa Sé. A primeira doença da lista é a ausência de autocrítica, é sentir-se imortal, superior a todos, em vez de a serviço de todos. E sugeriu a visita aos cemitérios, a fim de ver nomes de pessoas que se julgavam imortais e indispensáveis. E arrematou: “Uma Cúria que não faz autocrítica, não se atualiza e não tenta melhorar é um corpo doente”. 

Francisco se louvou da medicina para alertar sobre os que sofrem de “esquizofrenia existencial”, pois se apegam às tarefas burocráticas, perdendo o contato com a realidade, em detrimento dos serviços prestados às pessoas. Eles constroem muros e costumes em torno de si e ficam dependentes de seus próprios caprichos e manias. Outra doença é fazer da vaidade, da aparência e dos títulos os principais objetivos da vida; é tentar preencher o vazio existencial do coração com bens materiais; é querer mostrar-se mais capaz do que os outros, e, para isso, caluniar e difamar, ou transformar seu serviço em poder, a fim de obter mais proveitos e mais poder.

O papa usou outra palavra médica quando se referiu ao “Alzheimer espiritual”, que ocorre quando o apóstolo esquece seu fervor inicial, pela perda progressiva das faculdades espirituais, e se afasta do seu encontro com o Senhor. Talvez esta seja a principal doença do amplo diagnóstico do Santo Padre, porquanto pode ser a causa primeira de todas as outras, entre as quais estão a fofoca, a sisudez ou rosto fúnebre, a formação de grupinhos que enfraquecem o conjunto, o júbilo – por inveja ou astúcia – pela queda de alguém, enfim, uma lista de pecados que mostram o quanto os homens são frágeis, mesmo os que não parecem ser. Essa fala do Santo Padre se aplica não só à Igreja, mas à maioria das organizações humanas. Que Deus proteja o papa sem papas na língua, nosso irmão Francisco, que tem sempre a coragem de desfraldar a verdade.

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