O excêntrico Dr. Souza - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
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O excêntrico Dr. Souza

Sincero, franco e leal, sisudo e solteirão, alheio a encontros sociais, são traços marcantes no perfil humano do Dr. Antonio José de Melo e Souza (1867-1955), figura das mais importantes na política e nas letras do Rio Grande do Norte, nas primeiras décadas do século XX. Conforme escrevi na crônica anterior, Manoel Onofre Jr., com o livro “Polycarpo Feitosa – O excêntrico Dr. Souza”, fez um ótimo resgate histórico da vida do político austero e do escritor brilhante, além de ressaltar as excentricidades do seu biografado. Ao descrever o excêntrico Dr. Souza, o autor assim se expressa: “Se amou não deixou pistas. (...) Circunspecto, formal, cortês, cerimonioso, dotado de grande espírito crítico, parecia ter escrúpulo de pertencer ao gênero humano.” Citado nessa biografia, Eloy de Souza diz que Antonio de Souza, seu amigo e correligionário, era tão esquisito que, no mandato de governador, aboliu quase todas as festas no Palácio, e, no quesito danças, só permitia quadrilhas e valsas. Tinha poucos amigos, entre os quais constavam Henrique Castriciano, José Teotônio Freire, Ferreira Chaves e Januário Cicco. 

Ressalte-se que Antonio José de Melo e Souza – pseudônimo: Polycarpo Feitosa – , apesar das suas excentricidades, conseguiu sucesso nas urnas e no exercício dos mandatos. Chama atenção o fato de que a chapa vitoriosa na eleição de 1920, para os cargos de governador e de vice, compunha-se de dois intelectuais, cidadãos probos, dignos, ambos solteirões e sem vocação para a política: Antonio de Souza e Henrique Castriciano. A jornada administrativa, concluída em dezembro de 1923, marcou também o fim das ações políticas desses dois insignes homens públicos. 

Passo a relatar um insólito atrito que ocorreu, em 1922, entre o governador Antonio de Souza e a diretora da Escola Doméstica de Natal, a norte-americana Leora James, que morou em Natal de 1917 a 1922, e assumiu a direção da Escola Doméstica, a convite de Henrique Castriciano. A professora Noilde Ramalho falou-me sobre esse atrito e sobre a proficiente gestão de Leora James, durante cinco anos, com mudanças fundamentais para o sucesso do sonho pioneiro do ensino feminino no Rio Grande do Norte.  Leora James implantou novas bases do projeto educacional da ED, as quais garantiram o êxito futuro da instituição.

No início da década 1950, a diretora da Escola Doméstica Noilde Ramalho foi ao Rio de Janeiro, com o intuito de se encontrar com a educadora Leora James. Por feliz coincidência, encontrou-a na recepção do Hotel Serrador, na região central do Rio. Em conversas nos dias seguintes, a professora americana, de religião evangélica, explicou porque deixou Natal e a direção da Escola. No final do ano de 1922, na condição de diretora da Escola Doméstica de Natal, fora ao Palácio convidar o governador Antonio de Souza, católico de grande fervor, para a Colação de Grau da turma concluinte. Ao ouvir o convite, Antonio de Souza respondeu: “Estou sabendo que a senhora tem feito proselitismo junto às alunas, tentando atraí-las para a sua religião. Só tem uma opção para a minha presença na solenidade: a ausência da Diretora”. Leora James confessou a Noilde Ramalho que esta foi a maior decepção da sua vida, uma enorme injustiça, motivo pelo qual se afastou da direção da ED e deixou Natal, para nunca mais voltar. 

Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN


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