O círculo da vida - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
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O círculo da vida

Por não ser folião, preencho os dias de carnaval com leituras ou com outros tipos de lazer. Aliás, permitam-me revelar que carnaval foi o tema da redação quando fiz vestibular para o curso de medicina da UFRN, nos idos de dezembro de 1959. A redação foi a minha melhor nota, acima das obtidas em biologia, física e química. No cômputo geral, fiquei em segundo lugar, pois a nota máxima na redação levou um preparado aluno cearense à melhor média final.

Entre as leituras que fiz nesses recentes dias de ócio, deparei-me, no jornal Folha de S. Paulo, com algo sobre o destino do corpo humano após a morte, que pode passar por processo de compostagem para se transformar em ótimo adubo, conforme recentes estudos feitos nos Estados Unidos. Assinada pela jornalista Daniella Brant, a matéria compara com a compostagem de vegetais e de animais mortos, método que já se tornou amplo, viável e ecológico, em quase todo o mundo, no intuito de se obter adubo orgânico de boa qualidade, sem agressão à natureza. No UNI-RN, existe um projeto de compostagem, que usa o farto material que resulta das podas de árvores do campus. O adubo produzido é usado nos jardins, nos replantios e em uma horta orgânica, cuja produção é doada a pessoas carentes do entorno. É uma prática sustentável, a serviço do ensino e da pesquisa, em defesa do meio ambiente.

Segundo o texto da repórter Danielle Brant, as pesquisas sobre a Recomposição – nome usado para a compostagem de corpos humanos – estão se fazendo na Universidade Estadual de Washington, sob a liderança de Lynne Carpenter-Boggs, professora de ciência do solo. Ela diz que as técnicas básicas usadas na compostagem de restos animais são também efetivas com os restos mortais humanos. Washington, localizado na costa do Pacífico – não confundir com a capital do país –, é o estado com maior taxa de cremação nos EUA, onde o método responde por 76,4% de todos os procedimentos. É fácil de se entender, então, o motivo pelo qual o estado de Washington lidera a pretensão de tornar legal a compostagem de corpos humanos. A iniciativa partiu do senador estadual Jamie Pedersen, democrata de Seatle, com aprovação do Senado local, e agora segue para a Câmara. Já existe até empresa à espera da lei para começar a operar seus serviços, a exemplo da firma Recompose, de Katrina Spade. Como já se sabe, o enterro de corpos, sem os devidos cuidados, pode contaminar os lençóis freáticos e a cremação gera uma alta emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Spade defende a compostagem de corpos humanos sob o ponto de vista ambiental, mas reconhece que o custo pode ser alto. Além disso, há outros fatores a se levar em conta, sob os pontos de vista psicológico, cultural e religioso. Creio que esse tema tende a crescer na pauta das discussões globais, a curto e médio prazos.

Comecei o texto com referência ao carnaval, véspera da quarta-feira de cinzas, quando todos são chamados à reflexão: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar” (Gen. 3, 19). Fui ao belíssimo Sermão de Quarta-feira de Cinza, do Padre Vieira – Roma, 1672 –,  e encontrei: “O que chamamos vida não é mais do que o círculo que fazemos de pó a pó”. Concluo com a pergunta: qual será a melhor opção física para fechar esse círculo?

Daladier Pessoa Cunha Lima

Reitor do UNI-RN


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