Honras a Zé Preto, a Corina e a Rosa - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
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Honras a Zé Preto, a Corina e a Rosa

Neste 20 de novembro de 2018, dia da Consciência Negra, decidi prestar honras a três pessoas de pele negra, as quais estão presentes nas minhas melhores lembranças afetivas, dos tempos de criança. Destaco que a cor da pele dessas três criaturas pareciam ser de origem pura, vinda da África, sem nenhuma mesclagem com outra etnia. Ademais, reflexões sobre a questão racial se impõem no Brasil, sob a luz do direito à dignidade humana, inerente a todas as pessoas.

Presto honras a Zé Preto, que vivia em Nova Cruz no meu tempo de menino. Era forte, alto, sempre com um jeito de quem tinha tomado uns tragos de cachaça. Bonachão, cordial, tranquilo, gozava do apreço de todos do lugar. Transportar cargas bem pesadas era com ele mesmo. Fazia o transporte de fardos de tecidos da estação de trem para a loja do meu pai. Comprados no Recife, os tecidos iam sortir a loja para as vendas durante a safra de algodão. Tempos bons e de progresso aqueles, quando os trens da Great Western corriam sobre os trilhos da região Agreste, e os campos ficavam bordados de branco, cobertos pela alvura dos capuchos de algodão. Com a idade de 6 ou 7 anos, tive grande infecção no 2º artelho do pé direito, por causa de uma topada. Escondi de mamãe, a fim de não parar de jogar futebol, mas não resisti à dor crescente. A ferida estava muito feia, forte inchação, e papai me levou para consulta médica. Na ida, a fim de me consolar, ele chamou o carro de aluguel da cidade, um Ford 29 com capota de lona. Foi meu primeiro passeio de carro. Na volta, os bancos do Ford foram trocados pelos braços de Zé Preto. Cheguei em casa meio tonto pelo cheiro de álcool que respirei no percurso, e logo caí no sono. Após beber uma meiota de pinga, ele morreu afogado, ao tentar repetir a façanha de atravessar a nado o rio Curimataú durante uma grande cheia. 

Presto honras a Corina, que trabalhou na casa dos meus pais quando eu ainda estava fora da escola. Sua pele também era negra total, sem mistura. Lembro, sobretudo, da sua alegria, do seu sorriso, da sua ternura para comigo e para meus irmãos. Lembro também das ótimas cocadas de leite que fazia. Certo dia, sofri leve queimadura em uma das mãos, num ferro de engomar cheio de brasas de carvão, usado por Corina naquele momento. Chorava eu e chorava ela, mais ela do que eu. Lá pras tantas, disse-lhe: “A dor só vai passar com cocadas de leite.” Ela parou tudo e fez logo as benditas cocadas. Foi viver em São Paulo, onde se deu bem, casou e teve filhos. Encontrei-a algumas vezes quando ela vinha de férias para Natal, e ríamos juntos, sentindo o gosto das cocadas de leite. 

Presto honras a Rosa, irmã de Corina, parecidas no semblante e na bondade do coração. Rosa trabalhou por dezenas de anos com meus avós maternos. Ao longo do tempo, transformou-se em verdadeiro anjo da guarda dos dois, até fazerem a travessia final. Menino, passava alguns dias de férias na casa dos meus avós em São José de Campestre, e, desde então, pude perceber a grandeza humana de Rosa, Roseira, a alcunha de afeto. Já estudante de medicina, morei três anos na casa dos meus avós, aqui em Natal, depois que se mudaram para esta cidade. Mais uma vez, recebi de Rosa sua típica atenção, seu apreço e sua bondade, sou-lhe sempre grato. Por justiça, filhos e filhas de meus avós deram-lhe uma casa para morar. Ao se aposentar de um emprego público, Rosa vendeu a casa e foi residir em Belém, na Paraíba, com sua outra família, a de sangue.   

Daladier Pessoa Cunha Lima

Reitor do UNI-RN


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