Carta para Diogenes - Centro Universitário do Rio Grande do Norte - UNI-RN
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Carta para Diogenes

Todas as vezes que lhe trato assim, pelo primeiro nome, estranho o tom formal, mas o título do texto não chamaria igual atenção se fosse “Carta para Cunha”, como de fato o é. Há poucos dias, você me telefonou e disse que iria festejar seus 80 anos. Antes, pensara em viajar com a família, um lazer que muito lhe agrada. Porém, após pequeno susto com a saúde, pensou: “não sei quanto tempo tenho pela frente, então, vou reunir a família e amigos para celebrar minhas oito décadas de vida”. Aquela rápida conversa lembrou-me do nosso tempo de meninos em Nova Cruz, você e eu com idades muito próximas, alunos do Educandário Nossa Senhora do Carmo, das freiras franciscanas, nós dois vestidos com a fardinha, calça curta de tecido azul marinho e camisa branca. Não há como esquecer da nossa primeira escola, que agora é um colégio, das queridas irmãs que nos fizeram adentrar o mundo dos estudos e nos transmitiram valores, virtudes e princípios cristãos. Saudades e gratidão também guardamos de três bondosas pessoas – Corina, Lúcia e Hilda – que, em casa, ajudaram dona Nicinha a cuidar dos filhos pequenos.
Nossos dois irmãos mais velhos – Ariam e Gilma – nasceram em Natal; os mais novos – Marcelo e Olindina – nasceram em João Pessoa, e nós dois, os do meio, nascemos em Nova Cruz, cidade equidistante das duas capitais. Pois é, somos nova-cruzenses e nascemos na mesma casa, pelas mãos da mesma parteira, com intervalo de um ano e alguns meses. Jogamos muitas peladas de futebol no campo da Lagoinha, brincamos com castanha de caju, com “cédulas” de papel de cigarro, com carros de puxar e outros brinquedos da época. Algumas das suas roupas eu as aproveitava, e até os livros do colégio. Criança bem pequena, você era meio zangado – lembra-se? –, dentro do estilo: fácil de se irritar e difícil de serenar. Talvez a asma que tanto lhe importunou tenha contribuído para isso. Mas toda a “zanga” você gastou na infância, e, à medida da passagem dos anos, você se tornava o oposto, afável, cordial, de sorriso fácil. Nossa mãe dizia que eu demorei a falar de forma clara e que, quase sempre, somente você era capaz de traduzir as minhas palavras, única medida para que eu voltasse à calma. E a loja de papai, que ele tanto amava, ah, a loja, onde vendemos tecidos e aprendemos lições para a vida.
Uma imagem que nunca se apagou das minhas retinas: Cunha Lima – era assim que mamãe lhe chamava – com uma revista ou um livro nas mãos, totalmente preso à leitura. Dali, você não saía para nada, mesmo que fosse para a melhor brincadeira. Fomos criados em um ambiente de valorização dos estudos e da leitura, mas penso que esse seu apego aos livros é de nascença.
Lembra-se do nosso Anjo da Guarda, visto em um pequeno quadro preso à parede do nosso quarto, na casa de Nova Cruz, com grandes asas e com as mãos a proteger uma criança? Nosso Anjo era bacana, atento e zeloso, mas não evitou que, vez por outra, houvesse entre os dois meninos uma contenda só resolvida no tapa, sem machucar. Porém, logo reinava a mesma paz e o mesmo afeto. Há muitas outras passagens para recordar, mas o limite do texto não permite.
Hoje, proponho que nossa atual escala do tempo avance mais devagar, assim, de 80 para 90, de 90 para 100. E depois dos 100?  Aí é outra conversa, os tempos serão outros ...   


Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

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